Atriz e educadora Zezita Matos revela detalhes da sua trajetória de vida e artística

Cultura 07/01/2017 às 20:43


"Sempre pensei numa arte que não fosse apenas entretenimento, mas uma arte que fizesse pensar. Eu acho que não é apenas sorrir, achar engraçado ou sair do teatro deslumbrado. A arte tem que deixar você alerta para outras coisas, pois ela faz parte da vida, e um dos meus objetivos é questionar”, conta a atriz e educadora, Zezita Matos, em entrevista.
 
No dia 22 de dezembro de 2016, durante a reinauguração do Teatro Santo Roza, Zezita foi agraciada com o Troféu Pedra Bonita, em reconhecimento pela contribuição ao desenvolvimento da cultura paraibana e nacional. Conhecida por muitos como a Primeira-Dama do Teatro Paraibano, título que recebeu de um amigo e que se tornou marca registrada da veterana atriz, Zezita transita pela atuação há quase 60 anos. Desde os 16, a admiração e a vontade de ser artista já permeava os seus pensamentos. Hoje, aos 75 anos, ela leva a simplicidade adquirida do interior da Paraíba para os palcos, telas de cinema e televisão. Além de apresentar-se como uma representação feminina de grande nome para o cenário cultural do estado.
 
Com uma carreira premiada em Festivais de Cinema e pela crítica, a atriz também foi membro da juventude comunista, referência na educação do estado e uma “metamorfose” no teatro. Recentemente, Zezita Matos emprestou sua vocação para se tornar a Piedade na teledramaturgia, sua primeira personagem efetiva na televisão. Além de disseminar o seu trabalho, ela revela que a Paraíba é um berço de bons atores.
 
Num balanço sobre o ano que passou, a “primeira-dama” lembra que mesmo nesse recesso horroroso da arte, com redução de verba, e diante desse momento político que assola o país, ela espera que a arte sobreviva. “Foi um ano de muito trabalho, de grandes conquistas e reconhecimento, anseio que 2017 também seja assim”, pontuou, ao lembrar que novos projetos estão por vir. Ela deseja ainda, ter muita saúde para continuar fazendo trabalhos no teatro e no cinema.
 
Um longa-metragem, no qual fará apenas uma participação e um curta, em que atuará como protagonista são alguns dos projetos que a atriz pôde adiantar para o ano que iniciou. 

A Vida Severina 
 
Nascida na cidade de Pilar, localizada na Zona da Mata paraibana, em 28 de agosto de 1941. Seu nome de batismo é Severina de Souza Pontes, e não Zezita, nome pela qual se tornou conhecida e ecoa até hoje no cenário artístico e cultural do Brasil. Até os 12 anos de idade, nem ela mesma sabia que se chamava Severina, até então atendia a todos pelo nome que reverbera até então, Zezita Matos.
 
Até certo dia, quando sua mãe foi fazer um exame de admissão numa escola, em João Pessoa, foi solicitada a certidão de nascimento. Nesse momento, Severina, ou Zezita, se deu conta de que seu verdadeiro nome era Severina. “Imagine isso para uma criança de 12 anos, que não imaginava nunca que pudesse ter outro nome, quando fiquei sabendo eu quase não acreditei”, disse.
 
Em contrapartida, tudo isso lhe favoreceu. Durante o golpe militar de 64, ela havia sido perseguida, enquanto estudava no Liceu Paraibano. Os soldados foram à sua procura, num desejo de capturá-la, afinal, uma mulher que peitava a sociedade, era artista e militante social, não deveria estar solta.
 
Então, ao procurar por Zezita, ela não foi encontrada, pois na escola, foi admitida como Severina de Souza Pontes. “Consegui não ser presa por causa disso, mas como Zezita me salvou, eu quis apenas incorporar esse nome, mas sem deixar o de batismo”, disse, ao revelar que haviam lhe sugerido a mudança de identidade.
 
Primeira vez que as cortinas se abriram Em 1958, Zezita fez seleção para o Liceu Paraibano, segundo ela, naquela época, quem não estudasse no Liceu não tinha gozado a vida. A menina já revelava seu lado militante das causas sociais. Na escola, ela fez parte do grêmio estudantil, projeto que a levou a participar de um evento em Campina Grande voltado para estudantes, onde conheceu Breno “nicotina”, também do partido comunista, que viria a se tornar seu namorado.
 
Em agosto daquele ano, Breno disse a Zezita que fazia teatro e precisava de alguém para que atuasse na peça “Prima Donna”. Em 18 de agosto de 1958 Zezita pisa nos palcos e ingressa no teatro, de lá até hoje, não parou mais de atuar. “Seja grávida, dando de mamar, fazendo mestrado, trabalhando como educadora, nunca parei”, contou, ao relembrar de quão longa é sua carreira. O primeiro festival que Zezita fez foi em Maceió, onde se deslocou de trem até lá, na companhia de amigos de cena.

Velho Chico e a televisão
 
A atriz dos palcos já havia feito uma participação na novela Vereda Tropical, exibida pela Rede Globo em 1984. No folhetim, Zezita gravou cenas curtas na própria João Pessoa. Já o convite para atuar na novela Velho Chico surgiu do diretor Luiz Fernando Carvalho, que a convidou para ser a mãe de Irandhir Santos, um ator pernambucano que já atuou com Zezita em diversos trabalhos paraibanos.
 
Feliz com o convite, mas sem nunca ter pensando ou idealizado trabalhos na televisão, ela não aceitou no primeiro momento, pois precisava da opinião dos amigos e colegas de trabalho do Coletivo de Teatro Alfenim, que estavam em cartaz em alguns estados com o espetáculo “Memórias de um Cão”. Na conversa com eles, todos deram a maior força, pois é raro um ator de teatro ser chamado para um papel assim. “Foi muito interessante, muito agradável ser dirigida pelo Luiz Fernando, a gente pensa que tá fazendo cinema. O núcleo todo teve uma relação muito intensa de cumplicidade”, contou Zezita, ao lembrar-se das diferenças entre estar nos palcos e atuar em frente às câmeras.
 
O Núcleo atuava com muito afeto, todos felizes, até doer tanto a morte do Domingos Montagner, ator que interpretou seu filho e morreu de forma trágica durante as gravações da novela. “Domingos foi, de fato, um filho. Ele era uma pessoa muito carinhosa, com quem aprendi a gostar. Ele era uma pessoa muito humana e muito lúcida. O Domingos era um ator que entendia o papel, além de ser generoso. Ele tem o que todos os atores deveriam ter: a generosidade. Foi um grande momento da minha vida conviver com ele”, comentou emocionada. Segundo ela, era como se o ator estivesse ali até o fim da trama.
 
No cinema, Zezita atuou em filmes como “A História da Eternidade”, “Cinema, Aspirinas e Urubus” e “O Céu de Suely”. Contribuição na Educação Zezita é formada em Letras e Pedagogia. Aposentada do Centro Universitário de João Pessoa, onde foi coordenadora de Pedagogia e de Letras, ainda hoje se envolve em projetos culturais, como a implantação de exposições, saraus de poesias e um cineclube na instituição. 
 
No Unipê, Zezita é coordenadora da responsabilidade cultural, dissemina a arte através do teatro e do coral. Uma dama no Teatro Santa Roza Zezita Matos foi a primeira mulher a dirigir o Teatro Santa Roza, reinaugurado este ano. “Dirigir o teatro Santa Roza foi uma experiência muito interessante. Na época, eu estava em cartaz com uma peça e pude encená-la. Além de conhecer várias pessoas pude me enriquecer com essa experiência. As homenagens que tenho hoje são muito importantes”, revelou.
 
Não foi só na direção do teatro que a Severina esteve no comando. Apenas uma vez, ela dirigiu um espetáculo chamado “Chamar a Polícia”. Mas o que ela gosta mesmo é de atuar e participar das criações: “eu gosto de dar pitaco”, brincou. Coletivo de Teatro Alfenim e a Casa Amarela Fundadora do Coletivo de Teatro Alfenim, juntamente com Márcio Marciano, Zezita conta que ele existe há 10 anos. Desde abril de 2007, atua com uma proposta de teatro e produção colaborativa. O Alfenim possui um espaço próprio, onde o grupo se reúne para criar e ensaiar, além de se apresentarem. A Casa Amarela é sediada no centro da cidade. 
 
Com uma dramaturgia própria, baseada em assuntos brasileiros, o Alfenim inicia o ano produzindo um espetáculo baseado nos fragmentos de obras do Bertolt Brecht. Sem nunca ter feito um monólogo, e mesmo não gostando de estar só nos palcos, Zezita foi presenteada pelo fundador do coletivo com um monólogo chamado “Brevidades”.
 
Um desejo
 
“Um desejo que tenho é contar um pouco da minha história no teatro, no cinema e na educação, sem fazer, necessariamente, uma biografia. Mas narrar os fatos históricos que me assolaram em 75 anos de vida. Este ano darei o primeiro passo para a realização desse sonho”, concluiu.

VITRINE DO CARIRI
A União

Compartilhe isso

Comentários