Com doença incurável, arremessadora se reinventa com conquistas no esporte

Esporte 10/07/2017 às 20:16


 Corria o ano de 1993, quando a guarda municipal Elizabeth Rodrigues Gomes perdeu o equilíbrio e sofreu uma queda ao tentar pular uma poça d'água numa rua de Santos. A inesperada fraqueza nas pernas era o primeiro sinal de que a vida de Beth passaria por uma grande mudança. Aos 27 anos, a santista teve diagnosticada uma esclerose múltipla, doença incurável que pode causar muitos sintomas, dentre eles perda da visão, dor, fadiga e comprometimento da coordenação motora. Os primeiros anos foram difíceis. Elizabeth chgou a ficar tetraplégica e sem enxergar por alguns dias. Vencida a depressão, a santista embarcou na carreira esportiva e hoje é um dos principais nomes do arremesso de peso paralímpico no mundo.

Beth Santos é uma das 25 integrantes da delegação brasileira que disputa o Mundial de Atletismo Paralímpico de Londres, a partir de sexta-feira. Bronze no arremesso de peso no Mundial de Doha 2015, ouro no lançamento de disco e prata no arremesso de peso nos Jogos Parapan-Americanos de Toronto 2015, Beth compete na classe F55 no Reino Unido.
 
- Descobri que tenho esclerose múltipla em 1993. Estava em serviço, fazendo uma ronda em Santos, era um dia de chuva e a tenente me convocou para uma reunião. Quando fui pular uma poça, caí, torci o tornozelo e fraturei a tíbia. Fui internada para me recuperar e a partir de então nunca mais voltei a andar. Nos primeiros anos, tive depressão e, durante um surto, parei de enxergar a perdi o movimento dos braços. Felizmente, fui me recuperando desses sintomas aos poucos e hoje só tenho paralisia nos membros inferiores - contou Beth Gomes, como é conhecida a atleta no meio esportivo.
 
A ligação de Elizabeth com o esporte vem de antes da doença. Desde os 14 anos, a santista praticava voleibol na sua cidade, tendo participado de competições locais e integrado o time da Guarda Municipal de Santos. Em 1996, Beth conheceu o basquete em cadeira de rodas. Pouco depois, ela passou a praticar também as provas de força do atletismo. Como jogadora de basquete, a atleta participou dos Jogos Paralímpicos de Pequim 2008. Em 2010, Beth optou por ficar apenas no atletismo. A partir de então, os resultados nas provas do arremesso de peso e lançamento de disco foram tomando uma nova proporção.
 
- Descobri o esporte paralímpico quando fui tirar a carteira de deficiente físico na minha cidade. O presidente da associação era cadeirante e me sugeriu praticar basquete em cadeira de rodas. Num primeiro momento recusei. Minha grande paixão era o vôlei, e se eu não podia mais jogar vôlei, não queria saber de esporte nenhum. Depois acabei aceitando e virando atleta paralímpica. Hoje estou aqui me preparando para o meu terceiro Mundial de Atletismo - destacou.
 
Por conta da vida de esportista, Beth consegue minimizar os efeitos da esclerose múltipla, que não avançou desde que a atleta conseguiu reverter a paralisia nos membros superiores e a deficiência visual. Aos 52 anos, a santista é solteira e mora com um irmão na cidade natal. Ex-vice-presidente do Conselho Municipal de Deficientes Físicos de Santos, Beth acredita que Santos é uma das cidades mais acessíveis do país.
 
- Santos é uma cidade onde eu consigo circular bem de cadeira de rodas. Quando não estou treinando ou competindo, gosto muito de ir a um barzinho, me reunir com os amigos e passear - disse ela.
 
Beth chega a Londres disposta a curar uma frustração vivida no ano passado. Por conta de uma reclassificação, ela migrou da classe F54 para a F55 (grau de deficiência menor que a F54) um pouco antes da Paralimpíada do Rio. Como não abriu prova do arremesso de peso na F55, Beth acabou ficando de fora dos Jogos. No entanto, a não ida à Rio 2016 acabou se tornando o combustível para que a atleta se reerguesse novamente.
 
- Foi muito frustrante não ter disputado a Paralimpíada do ano passado. Mesmo assim, viajei para o Rio para assistir aos Jogos e torcer pelos colegas brasileiros. No apartamento em que eu fiquei hospedada, tinha um quadro escrito "London". Olhei para ele e falei que era lá que eu queria estar no ano seguinte. Felizmente a vaga para o Mundial veio. Hoje estou feliz, recuperada da frustração e pronta para fazer história nesse Mundial - finalizou a atleta, que conseguiu a classificação para o Mundial no arremesso de peso F55, superando o índice da prova no Open da Argentina.
 

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