Quando o Brasil descobriu o talento da irreverente pifeira Zabé da Loca

Cultura 06/08/2017 às 20:26


 “Quando o Brasil perde Zabé da Loca, perde uma música tão brasileira. Eu fico triste porque morre Zabé e também porque morre essa música, que é a melhor música que o Brasil possui”, comentou a produtora carioca Lu Araújo, de Portugal, onde mora atualmente. Por 15 anos, ela conviveu de perto com a artista pernambucana, radicada desde a adolescência na cidade de Monteiro, no interior da Paraíba. Zabé morreu neste sábado (5), aos 93 anos de idade.

 
Em 2004, Lu Araújo tirou Zabé da loca para mostrá-la ao Brasil. A primeira parada foi em Brasília, onde incluiu a musicista no projeto Da Idade do Mundo, que reunia artistas que começaram a carreira tardiamente.
 
Depois disso circulou com ela pelo Rio de Janeiro e São Paulo, onde fez uma turnê pelo interior do Estado. “Estava lá quando Zabé viajou pela primeira vez de avião, entrou em um elevador, subiu uma escada rolante. Também estava lá quando ela perdeu os filhos que tocavam com ela na banda (de apoio da artista)”, enumera Lu. “Foi uma relação que marcou a minha vida”.
 
Para Lu Araújo, a artista tinha um semblante único. “Ela tinha um domínio sobre o grupo (musical que a acompanhava). Do jeitinho dela, ela cobrava e ficava zangada quando um músico fazia besteira ou não conseguia acompanhar o timbre dela”.
 
Revelação aos 84 anos
 
O ponto alto dessa parceria se deu com a gravação do álbum Bom Todo (Crioula Records, 2008), que deu à Zabé a estatueta de Artista Revelação no Grande Prêmio da Música Brasileira de 2009. Ela, então, estava com 85 anos e já contava com mais de 70 anos de carreira.
 
“Gravamos esse disco no estúdio Fábrica, no Recife (PE), com direção artística de Carlos Malta”, recorda a produtora. “Mas antes de chegar ao Recife, desembarcamos uma caravana em Monteiro, com músicos, técnicos de som, cinegrafistas, para fazer uma imersão no universo de Zabé. Queríamos habituá-la com o ambiente antes de levá-la ao estúdio. Passamos dez dias lá, com ela, tocando noite e dia”.
 
“Zabé não tinha somente uma história de vida para contar, uma história de sofrimento, de ter morado por 25 anos em uma gruta (ou loca, como chamam na região). Ela se destacou na música por tocar muito aquele ‘pife’, ser uma grande instrumentista, mesmo sem nunca ter estudado”, destaca, “e se sobressaiu em um meio estritamente masculino, que é a dos tocadores de pífanos. Ela foi uma pioneira”.
 
A artista nascida em Buíque (PE) começou a tocar aos 7 anos de idade e, de acordo com Lu Araújo, não tinha qualquer ídolo musical. “Zabé sequer sabia quem era Luiz Gonzaga ou Roberto Carlos”, comenta. “Tudo vinha da grande sensibilidade musical dela, da coordenação de vozes que ela emitia no pífano, nos climas surpreendentes que pintavam quando ela começava a tocar. Zabé da Loca foi uma pessoa que nasceu com esse dom e não é à toa que chegou aonde chegou”.
 
“Vou derrubar aquele ‘véio”
 
Em São Paulo, capital, ela chegou a dividir o palco com Hermeto Paschoal, em um dos episódios mais emblemáticos da biografia de Zabé. No Sesc-Pompéia, Zabé da Loca e seu grupo abriam o show do “Bruxo” alagoano. Ao descer do palco, a pernambucana de sangue paraibano ficou por ali, à espreita da apresentação de Hermeto.
 
Lá pelas tantas, ficou irrequieta, como recorda Lu Araújo. “Ela começou a dizer: ‘Eu vou derrubar esse homi’. E eu falava: ‘Fica quieta, mulher’. Quando eu vi, ela já estava no palco, tocando ferozmente seu ‘pife’ e o público, que achava que aquilo tudo fora combinado, aplaudindo enlouquecidamente. Ela tocava de uma maneira tão intensa que Hermeto não encontrava timbre para acompanhá-la e, por fim, acabou abandonando o show. Ela, então , terminou o número e voltou triunfante: ‘Não disse que derrubava aquele ‘véio’?!?”.

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