Crise política no Brasil impediu visita de Netanyahu, diz embaixador

Brasil 13/08/2017 às 09:39


 O embaixador de Israel, Yossi Shelley, 59, afirma que a crise política no Brasil impediu a visita do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu ao país em setembro em viagem à América Latina. Diante da incerteza sobre a permanência de Michel Temer na Presidência, o premiê optou por ir ao México e à Argentina.

Em entrevista à Folha, Shelley minimiza a crise com o Brasil em 2015, após a recusa por Dilma Rousseff da indicação de Dani Dayan para embaixador de Israel. Ele liderou colonos israelenses na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental. Os governos do PT eram contra a política de ocupação de territórios palestinos.
 
Shelley chegou em março ao Brasil. Empresário e amigo de Netanyahu, ele não tem carreira diplomática.
 
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Folha - Brasil e Israel passaram por um incidente com a recusa da indicação de Dani Dayan. Como o sr. compararia a relação naquele período com o momento atual?
 
Yossi Shelley - É um assunto pequeno. Dilma e Lula eram, na verdade, contra o Estado de Israel. Vamos olhar para frente. Hoje a relação é boa. Acredito que o presidente Temer faz um bom trabalho.
 
O sr. é empresário, não tem carreira diplomática. Qual sua principal missão aqui?
 
Quando o governo me nomeou, disse: "Queremos um empresário, não um embaixador de carreira". Tenho 25 anos de negócios, sei como fazer negócio. Quando estou com um governador, um banco, sei o que falar para avançar projetos fundamentais. Minha missão é menos diplomática e mais empresarial.
 
Como tem visto essa instabilidade sobre a permanência ou não do presidente Temer?
 
Como embaixador, não gostaria de comentar, porque isso é problema interno, não devemos interferir.
 
Mas há uma preocupação no governo?
 
Sim. Por exemplo, o primeiro-ministro de Israel [Binyamin Netanyahu] queria vir para cá. Convenci-o disso, três meses atrás. Ele decidiu vir para a América Latina em 11 de setembro, daqui a um mês. Quando o primeiro-ministro planeja visita, não o faz duas semanas antes. Claro que ele gostaria de vir ao Brasil, um país muito importante. Mas se você voltar duas semanas atrás, não sabíamos quem seria o presidente. Então disse ao primeiro-ministro o que estava acontecendo e ele tomou a decisão: 'Vamos para Argentina e México, e não Brasil'. Ele precisa definir agenda, questões de segurança. Isso não é um castigo [ao Brasil], mas é preciso planejar.
 
E como o sr. vê o atual momento do presidente?
 
Fiquei feliz que Temer ficou por causa da estabilidade. Não estou dizendo é ou não culpado, isso não é de minha conta. Assuntos políticos são problemas internos, mas se um ministro israelense vem ao Brasil, prefere que o governo esteja estável, porque nenhuma delegação quer apresentar um projeto e depois de um mês, isso mudar. A estabilidade é importante para fazer negócio, para as relações diplomáticas.
 
Como a crise econômica brasileira tem sido vista por Israel?
 
Para o governo não tem muito efeito, mas para os empresários sim. Não estou na posição de dar conselhos, mas visitei recentemente seis Estados. Por exemplo, no caso de dessalinização de água do mar. Há muitos projetos feitos em Israel e em outros países.
 
Alguns procedimentos precisam melhorar para as coisas serem feitas mais rapidamente. A burocracia não é uma palavra diplomática, mas os processos são lentos. A questão da água interfere em cinco, seis ministérios. Como se pode tomar uma decisão? Temos que falar com ministérios da Fazenda, da Agricultura, do Meio Ambiente, tem a ANA [Agência Nacional das Águas]. Precisaria unificar tudo isso. Um Estado fez um edital e falei com empresas israelenses. Responderam que depois do edital, são cinco, seis meses para se tomar uma decisão, e acabam desistindo, porque participar de licitação é gasto.
 
Os governos do PT apoiaram o acordo nuclear dos EUA com o Irã. O sr. espera que o governo Temer se coloque contrário?
 
Todos os governos deveriam fazer isso. O acordo nuclear é dar uma pistola para um bebê. Esse governo do Irã não é democrático, é um regime agressivo, prende pessoas sem julgamento.
 
O sr. vem de uma região marcada por conflitos. Como vê a onda de violência no Brasil, sobretudo no Rio?
 
A violência em todos os países é consequência de vários fatores. Vi na televisão que 91 policiais foram assassinados no Rio. É muito triste. Quando estive aqui em 1984, não havia isso. Está muito pior. O governo faz bem em usar o Exército. As pessoas esperam segurança, educação, as ruas limpas. 

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