Após vice se negar a herdar vaga, time da PB recebe dobro da meta de doações

Esporte 04/09/2017 às 21:25


Arrumem as malas. Preparem-se para voar pela primeira vez. Para o alto. Para longe. Para onde nunca antes sonharam ir. A viagem está para começar. E o destino é Curitiba, que a partir de 15 de setembro vai se transformar na capital brasileira do desporto escolar. Sim, meninos do basquete masculino da Escola Municipal João Alves, de Caiçara (cidade paraibana com apenas sete mil habitantes e localizada a 132km de distância da capital João Pessoa). Vocês não vão ficar de fora.
 
As passagens aéreas estão garantidas. Hotéis e alimentação igualmente. Roupa de frio, material de treino, itens de higiene pessoal. Tudo comprado de forma coletiva graças a centenas de pessoas espalhadas por todos os estados do Brasil e até do exterior que se sensibilizaram com a história da equipe pobre que não tinha dinheiro para viajar e que vinha sendo ajudada pelos próprios “rivais”: os derrotados da final dos Jogos Escolares da Paraíba que se negavam a herdar a vaga na edição nacional dos Jogos Escolares da Juventude na categoria de 12 a 14 anos.
 
A história foi contada neste domingo pela reportagem com e rapidamente ganhou o país. O time da escola municipal, que reúne atletas pobres de um projeto social de Caiçara, venceu o Colégio Motiva, de João Pessoa, na grande final da competição estadual de basquete. Placar de 31 a 19 que garantia o time do interior paraibano na edição nacional dos Jogos Escolares. Só que, sem dinheiro, o time de Caiçara desistiu da viagem. Avisou os vice-campeões da decisão na última sexta-feira. Mas ao invés de herdar a vaga, os pais dos alunos do Colégio Motiva (escolar particular de João Pessoa) iniciaram uma campanha nas redes sociais para arrecadar o dinheiro que viabilizaria a viagem dos campeões.
 
+ Time abre mão de herdar vaga e faz campanha para rival ir aos Jogos Escolares
A ideia era arrecadar seis mil reais para levar os meninos de ônibus. A campanha começou na sexta-feira. E em um dia, eles tinham arrecadado quatro mil reais. Faltava um pouco mais. Depois que a reportagem foi publicada, na tarde de domingo, a coisa saiu de controle. A primeira meta foi atingida em menos de uma hora. Os organizadores da campanha ampliaram a meta: quinze mil reais para levá-los de avião. Mas, em pouco mais de seis horas da publicação da matéria, o valor já passara de R$ 25 mil. E a previsão é que chegue a R$ 30 mil até o final do dia.
 
- Estamos atordoados. Estamos vivendo uma coisa totalmente nova. Não consegui trabalhar hoje. Tive que fechar o meu escritório para resolver a demanda de ligações e doações. Mobilizamos pessoas de todo o mundo. Uma única pessoa, de São Paulo, que eu nem mesmo sei quem é, doou R$ 500 – declara Tarik Pereira, um dos organizadores da campanha.
 
Ele completa, emocionado:
- A gente não precisa mais de nenhum centavo do poder público. Todos os gastos com passagens aéreas, alimentação e hospedagem estão garantidos. E ainda vai sobrar um saldo remanescente para outros gastos do projeto social. Já estamos pensando em adquirir material esportivo para os atletas e guardar algum dinheiro para outras competições – explica Tarik, extasiado.
 
Simplesmente, eles receberam doações de todos os estados brasileiros, sem exceção. E algumas do exterior.
 
- O objetivo foi alcançado. Agora, a preocupação vai ser prestar conta de tudo o que foi gasto. Queremos passar credibilidade ao movimento. Vamos investir tudo no próprio projeto social – completou.
 
Tarik Pereira explicou que recebeu também muita ligação de políticos, querendo ajudar, mas destacou que lhes foram negados qualquer holofote.
 
- Dissemos a todos os políticos que nos ligaram que eles poderiam doar qualquer valor como pessoa física. Mas o movimento era apartidário. Não queríamos nos vincular com nenhum lado.
 
Agasalhos e kits de higiene
As doações não ficaram no dinheiro. Dois grupos de mães de estudantes do Colégio Motiva estavam mobilizados em duas outras frentes: a arrecadação de agasalhos, para proteger a meninada do frito paranaense; e a compra de kits de higiene pessoal, já que os meninos não teriam dinheiro para nenhum desses itens.
 
- Já conseguimos tudo o que eles precisavam. Recebemos doação de vários agasalhos. E uma empresa doou bolsas com material de higiene pessoal para todos os meninos, composta cada uma com xampu, condiconador, pasta e escova de dente, entre outros – prossegue Tarik.
 
Caiçara vai jogar por todos
 
Técnico do time da escola de Caiçara, José Edson Francisco está completamente impactado. Ele diz que desde o domingo à tarde, quando a reportagem foi ao ar, vem recebendo uma incrível quantidade de mensagens via WhatsApp, de todos os lugares do Brasil. São mensagens de apoio e com comprovantes de depósito.
 
- Eu ainda estou sem acreditar. Não estou nem conseguindo dormir direito. A coisa passou muito mais da nossa intenção. A capacidade humana é incrível. Já chorei muito, completamente emocionado, desde então. Vai ser um sonho levar esses meninos para jogar em Curitiba.
 
Com a confirmação de que o time vai viajar, ele disse que reuniu os nove atletas do time de basquete na manhã desta segunda-feira. Conversaram. E fizeram um pacto.
- Vamos representar a nossa cidade e a Paraíba na primeira divisão. A gente se sente no dever de dar o máximo, compensar a oportunidade que todo o Brasil está nos dando. Vamos brigar em quadra por cada metro quadrado – declarou.
 
A coisa, de fato, saiu do controle. Para o bem, claro. O próprio Colégio Motiva entrou em contato com a resportagem para informar que o telefone da escola não parou de tocar em nenhum momento nesta segunda-feira, com ligações de todo o Brasil. E, diante de todo este cenário, quem se disse extremamente emocionado foi o técnico do time vice-campeão, Adriano Lucena. Ele é rodado. Tem experiências na seleção brasileira de base. Já treinou equipes importantes da Paraíba, inclusive profissionais. Mas disse que poucas vezes se emocionou tanto.
 
- Eles merecem. Venceram na quadra. É assim que deve ser.
 
Depois, comentou do orgulho que sente de seu time:
- Estou realizado. O que nos motivou a iniciar a campanha era evitar que um sonho morresse. O fato de termos conseguido, me deixa feliz como se meu próprio filho tivesse ganho algo. Estou feliz e ourgulhoso. O que aconteceu aqui foi uma lição de vida, de humanidade, de caráter dos meus atletas e de seus pais. É uma coisa belíssima. O esporte ensina isso. O verdadeiro esporte dá bons exemplos – resume.

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