Pelo Mundo: Seis vezes em que crianças e nudez geraram polêmica em museus

Entretenimento 07/10/2017 às 23:55


 Exposições envolvendo nudez e crianças não geraram polêmica apenas no Brasil.

Ao redor do mundo, mostras do tipo dividiram o público; algumas delas chegaram a ser fechadas por pressão de espectadores ou por ordem das autoridades, em meio a críticas de que supostamente incentivavam a pedofilia e a exploração de menores. Defensores rebateram levantando argumentos como o da liberdade de expressão artística e o fato de a arte ser, historicamente, um espaço de experimentação e provocação.
 
O debate inflamado também lançou luz sobre aspectos mais profundos do universo da arte, desde questões existenciais (o que é arte e quais são seus limites) a financeiras (a quem cabe financiar exposições e se elas podem ser subsidiadas com dinheiro público).
 
Na semana passada, um vídeo em que uma criança toca um artista nu durante uma performance no MAM (Museu de Arte Moderna) em São Paulo provocou uma onda de debates dentro e fora das redes sociais.
 
Confira abaixo outras polêmicas ao redor do mundo, bem como as discussões que elas despertaram.
 
Retrospectiva sobre carreira do polêmico fotógrafo americano Robert Mapplethorpe foi acusada de obscenidade  (Foto: BBC) Retrospectiva sobre carreira do polêmico fotógrafo americano Robert Mapplethorpe foi acusada de obscenidade  (Foto: BBC)
 
Retrospectiva sobre carreira do polêmico fotógrafo americano Robert Mapplethorpe foi acusada de obscenidade (Foto: BBC)
 
1) Estados Unidos: marco na "guerra cultural"
 
Uma retrospectiva sobre a carreira do polêmico fotógrafo americano Robert Mapplethorpe gerou enorme polêmica quando realizada logo após a morte do artista, em 1989 (ele morreu de aids em março daquele ano), e foi considerada um marco na chamada "guerra cultural" ─ como é conhecido o conflito entre valores tradicionais e liberais.
 
Reunindo 175 fotos, a mostra incluía nus clássicos, flores com temática sexual, dois retratos de crianças nuas e cinco imagens de cultura sadomasoquista gay.
 
A exposição já havia sido cancelada em meio a protestos em uma galeria de arte de Washington - que culminou, inclusive, com o pedido de demissão do então diretor, quando o Centro de Artes Contemporânea de Cincinnati, em Ohio, decidiu inaugurá-la, em abril de 1990.
 
A Justiça chegou a acusar o diretor e a própria instituição de obscenidade. Foi a primeira vez que um museu foi alvo de queixas criminais nos Estados Unidos.
 
Um júri considerou todos inocentes e Cincinnati é hoje considerada um bastião dos direitos LGBT nos Estados Unidos.
 
2) Reino Unido: foto de Brooke Shields
 
Em setembro de 2009, uma foto da atriz americana Brooke Shields, conhecida por protagonizar o filme A Lagoa Azul aos dez anos de idade, levou a polícia a fechar parte de uma exposição que ocorria na famosa galeria de arte Tate Modern, em Londres, no Reino Unido.
 
A sala onde a foto estava pendurada acabou fechada sob a alegação de que incentivava a pornografia infantil.
 
A imagem que gerou a polêmica era uma obra do americano Richard Price, intitulada Spiritual America. Price tirou uma foto de outra foto, registrada pelo também americano Gary Ross com a permissão da mãe de Shields.
 
A foto, que retrata a atriz ainda criança com maquiagem pesada e seu corpo besuntado em óleo, era exibida em uma sala completamente separada do restante da exposição e com um alerta de que poderia "perturbar" alguns espectadores.
 
Mesmo assim, a mostra foi fechada.
 
3) Canadá: menina nua sobre TV
 
Uma foto de uma menina sentada nua em cima de uma TV gerou polêmica quando exibida em março deste ano no Museu de Arte Contemporânea de Montréal, no Canadá.
 
A imagem, de autoria dos irmãos chineses Gao, foi incluída na exposição e iria a leilão.
 
A dupla é conhecida por suas obras polêmicas, que retratam nudez na arte.
 
Segundo eles, o uso da nudez é uma forma de celebrar a liberação do corpo após a Revolução Cultural na China.
 
4) Rússia: adolescentes e seus pais
 
Uma onda de protestos gerou o fechamento de uma exposição em uma pequena galeria de arte em Moscou, na Rússia, em setembro de 2016.
 
A mostra consistia em fotos do americano Jock Sturges retratando adolescentes nus com seus pais.
 
A senadora conservadora pró-Kremlin Yelena Mizulina descreveu as imagens nuas de crianças em idade escolar como "abuso infantil" e chamou o trabalho de "propaganda de pedofilia no sentido mais literal da palavra", segundo o jornal britânico The Guardian publicou na ocasião.
 
As acusações foram seguidas por uma manifestação do grupo ativista conhecido como Officers of Russia, que defende "a criação patriótica da população" russa. Eles bloquearam o acesso ao prédio onde a exposição era realizada e invadiram a mostra. Um deles teria jogado uma sacola plástica cheia de urina nas fotos. O ativista foi detido pela polícia.
 
Em entrevista à TV russa, Sturges falou que suas fotos não tinham nenhuma relação com pornografia e haviam sido feita com o consentimento dos pais das crianças retratadas.
 
5) Austrália: "criança em contexto sexual"
 
Uma exposição do polêmico fotógrafo australiano Bill Henson foi fechada em maio de 2008 antes mesmo de ser inaugurada depois de acusações de pornografia infantil.
 
Tanto o artista quanto os galeristas foram indiciados por "retratar uma criança com menos de 16 anos em um contexto sexual".
 
As fotos mostram meninas com os seios à vista e, em uma delas, era possível ver sua genitália, embora parcialmente escondida por sua mão.
 
As crianças são retratadas nuas e sozinhas, com o cuidadoso chiaroscuro (técnica da pintura renascentista italiana que consiste no contraste entre luz e sombra na representação de um objeto) típico do trabalho de Henson.
 
A polêmica dividiu a sociedade do país na época, em um debate opondo, de um lado, a defesa da liberdade artística e, do outro, o argumento de que imagens nuas de meninas de 13 anos representariam exploração sexual de menores.
 
O então premiê do país, Kevin Rudd, chegou a chamar a exposição de "revoltante". Já uma representante da Associação de Artes Visuais australiana disse na ocasião que havia uma "histeria nacional" em torno do tema e que "artistas estão sendo usados como bodes expiatórios".
 
6) França: escolas deixaram de visitar museu
 
Duas escolas públicas cancelaram a visita ao Salão das Artes de Cholet, no oeste da França, por causa da nudez representada pelos quadros do artista francês Alain Bonnefoit, convidado de honra.
 
Um dos diretores da escola disse que resolveu se antecipar a uma eventual polêmica.
 
Em entrevista ao jornal Ouest-France, uma professora de outro colégio que veio à exposição acompanhada de seus alunos afirmou: "Não podemos nos bloquear à nudez. No Museu d'Orsay (um dos mais importantes da França), vemos também pinturas de nus; e não devemos escondê-las".

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