RETROSPECTIVA 2017 na cultura: polêmicas, despedidas e o poder das minorias

Cultura 30/12/2017 às 22:05


Em 2017, o que mais se discutiu na cultura por aqui foi, acredite ou não, se ela deveria ou não ser censurada. Tudo começou em setembro, com a questão da exposição “Queermuseu”, no Santander Cultural, em Porto Alegre, quando manifestações raivosas acerca do conteúdo “pornográfico” causaram o fim da exposição.

Empurrados por interesses eleitoreiros, políticos de todo o Brasil não tardaram a apresentar projetos para vetar manifestações artísticas que julgassem afrontar a “família tradicional brasileira” ou os princípios cristãos.

A situação se agravou no final do mesmo mês, quando crianças interagiram com o artista Wagner Schwartz na performance “La Bête”, no MAM, em São Paulo. Wagner estava nu e as crianças, acompanhadas pelos pais, tocaram seus braços e suas pernas.

Por aqui, vereadores e deputados ingressaram com projetos de lei pró-censura. Um deles, do deputado Euclério Sampaio (PDT), foi aprovado pela câmara de forma quase unânime – apenas Sérgio Majeski (PSDB) votou contra. O governador Paulo Hartung (PMDB) vetou o projeto.

EM HOLLYWOOD

Muito mais relevante do que a discussão do que a bobeira da censura às artes, a discussão sobre os assédios que vieram à tona em Hollywood também marcaram 2017 e a indústria americana de cinema e TV talvez nunca mais seja a mesma.

Em outubro, uma série de denúncias de assédio sexual contra o produtor Harvey Weinstein, um dos sujeitos mais poderosos do negócio, foi publicada pelo “The New York Times”. Após a publicação da reportagem, diversas outras atrizes resolveram revelar que foram assediadas pelo produtor, que usava seu poder na indústria como ameaça: elas poderiam virar estrelas ou ser esquecidas. Tudo dependia dele. O número de acusações já passa dos 90.

Com as vozes dos assediados finalmente sendo ouvidas, acusações contra nomes poderosos como Kevin Spacey e Dustin Hoffman também repercutiram. Acusado pelo ator Anthony Rapp de assédio quando este tinha 14 anos, Spacey, inclusive, foi demitido de “House of Cards”, série que protagonizava, e viu Ridley Scott refilmar todas as cenas em que aparecia no filme “All The Money in The World” com Christopher Plummer em seu lugar.

Ao mesmo tempo em que podemos comemorar que os assediadores estejam finalmente pagando por isso, o número de assediados e a maneira como a indústria é conduzida é preocupante. Com certeza ainda á muitas vozes caladas.

DESPEDIDAS

A cultura deu adeus a alguns nomes importantes em 2017. O câncer levou o ator John Hurt e os cineasta Jonathan Demme (“O Silêncio dos Inocentes”) e George Romero, o pai dos zumbis. Ícones como Jerry Lewis, 91 anos, e o ex-007 Roger Moore, 89 anos, também nos deixaram.

Na música, os amigos Chris Cornell (Soundgarden), de 52 anos, e Chester Bennington (Linkin Park) sucumbiram à depressão. Cornell se matou em maio, enquanto Bennington seguiu o mesmo caminho em julho, no dia do aniversário de Cornell.

No Brasil, Paulo Silvino morreu em agosto, aos 77 anos, vítima de câncer, mesma doença que vitimou os inesquecíveis Luiz Melodia Márcia Cabrita, Nelson Xavier e Jerry Adriani.

Quem também será sempre lembrado é Antônio Carlos Belchior, ou simplesmente Belchior, que, após anos de um exílio autoimposto, morreu em abril, aos 70 anos.

REPRESENTATIVIDADE

Ao mesmo tempo em que viu retrocesso de pensamento na maneira como as pessoas veem as artes, 2017 também mostrou que vozes antes abafadas vieram para ficar.

Na música, o rap teve um grande ano, com ótimos discos de nomes como Don L, Rodrigo Ogi, Baco Exu do Blues e Rincon Sapiência levando a cultura “do morro para o asfalto”. Sabe quem também fez isso? Sim... ela mesmo. Anitta.

A funkeira carioca apostou suas fichas no projeto “Checkmat”: quatro músicas que a levariam para uma carreira internacional que já vinha engatinhando após o lançamento de “Switch” e “Paradinha”.

Ninguém esperava é que “Vai, Malandra”, a última a ser lançada, seria uma ode à cultura de favela. Digam o que quiser, mas Anitta mostrou a favela ao mundo – sem esconder suas celulites e com direito ao biquíni de fita isolante, que sabe-se lá por que, já é um sucesso.

Anitta também ajudou a alavancar outro sucesso incontestável do ano: Pabllo Vittar. A cantora drag queen dividiu os holofotes com a carioca em “Na Sua Cara”, música de Major Lazer em que, na verdade, quem brilha são as brasileiras.

A diversidade também chegou às novelas com a excelente “Força do Querer”. Na trama de Glória Pérez, o transexual Ivan (Carol Duarte), criado a vida inteira como uma mulher, passa a viver como homem e muda a vida de todos ao seu redor. A forte história ganhou ainda mais poder com a atuação de Carol Duarte.

Nos cinemas, o maior respresentada da diversidade foi “Moonlight”, filme vencedor do Oscar de Melhor Filme (após uma trapalhada danada dos apresentadores). O filme de Barry Jenkins levou outros dois prêmios com a história de um jovem negro e gay da periferia de Miami. As críticas vieram, claro, mas o filme é um belo exercício de empatia. Quem sabe não seja essa a palavra para o ano que começa nesta segunda (1)?

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